Governança

O fator-chave

postei aqui sobre o tripé do sucesso em gerenciamento: PESSOAS-PROCESSOS-FERRAMENTAS, uma relação de dependência entre três fatores onde as pessoas são o fator-chave, a razão de existência de tudo mais, o início e o fim. Os processos e as ferramentas são fatores consecutivos, de importância acessória e que jamais devem subjugar a singularidade do ser humano. E é no aspecto da singularidade que o gerenciamento e a governança devem focar.

A singularidade e a pluralidade nas concepções que tangenciam o indivíduo são assuntos complexos, e não entrarei em detalhes. A sociologia, a psicologia e a filosofia contribuem melhor para tais reflexões. Porém, vale ressaltar a importância de compreender tanto o indivíduo enquanto existência única quanto a natureza do contexto social a qual ele se insere, e essa é uma habilidade imprescindível a um gestor, algo inerente ao ser humano, possível de ser tecnicamente adquirida ou aperfeiçoada. O mais confortável é buscar aflorar tal habilidade de forma natural, aguçando algo que se chama inteligência interpessoal. A inteligência interpessoal pode ser buscada lançando mão do senso comum, observando os limites, os comportamentos, os sucessos, os fracassos, as ânsias, os sentimentos dos que nos rodeiam. Certamente, essa busca requer outros atributos, infelizmente enfraquecidos no ser humano contemporâneo, mas perfeitamente acessíveis aos que veem cada pessoa como ser único e importante para o funcionamento da vida.

Pessoas usam ferramentas no cumprimento dos processos. No ambiente corporativo, encontramos ferramentas variadas que auxiliam seus colaboradores na execução de processos. Falando de software, há sempre um para controle financeiro, outro para vendas, há o antivírus, o editor de texto etc. Pegando casos particulares, encontramos exemplos específicos para controle de projetos, desenhos de engenharia, para design, edição de vídeo etc. Ou seja, há sempre uma ferramenta especializada a cada processo a ser seguido. Certamente, há processos que dispensam ferramentas, e ferramentas que não se relacionam a processos. Porém, independente do cenário, sempre há pessoas.
O mais comum é encontrar uma ferramenta padrão a ser usada para um processo ou grupo de processos, numa relação um-para-um. A contabilidade segue processos da governança corporativa e para facilitar dispõe de alguma suíte de gestão contábil, onde lança e comanda as contas a pagar, as a receber, o balancete, as notas fiscais, podendo ainda estar tudo integrado a outras suítes, como as de controle de estoque, folha de pagamento, gestão do conhecimento. O que se vê é um inevitável engessamento do cotidiano, dificultando o trabalho do indivíduo. O fracasso gerencial surge do descontentamento que ignora a singularidade humana perante os processos desenhados, engessando cada indivíduo num molde com um mesmo caráter e capacidade, e que compreenderá a rotina exatamente como foi escrita por outra pessoa.
 
Quando tudo funciona, tudo vai bem, a ferramenta é eficiente e o processo eficaz… e quando o software “dá pau“? Nesse momento, quem se destaca é o fator humano, na maioria das vezes de forma negativa, levando a culpa pela ineficácia de um sistema baseado em FERRAMENTA-PROCESSO. Ora, o ser humano é passível de falha, é da nossa natureza, assim a ineficácia é um ciclo de causa e efeito sobre o fator-chave PESSOA. O mais lógico é compreender que as falhas de um sistema são decorrentes dos limites humanos, na pluralidade, mas que se refletem no fator-chave, na singularidade. Assim, as ferramentas e os processos enquanto fatores acessórios devem ser usados como opção ao indivíduo que deles quiser fazer uso. O processo deve ser um modelo sugestivo e não mandatório. A ferramenta deve ser um recurso plausível e não único. Assim, o indivíduo, em sua singularidade, achará conveniente redigir um memorando a próprio punho se não se sentir confiante ao usar o mais moderno editor de texto que a TI instalou em sua máquina. Ou ainda, datilografar na aposentada máquina de escrever, que jaz em algum canto perdido ou nos brechós de antiguidade.
 

Minha reflexão é quase cômica. Estou falando de retrocesso e anacronismo, algo obviamente absurdo para nossos dias, mas que vale de reflexão para aquele gerente que, movido pela eficácia de seus processos, manualizou suas amizades em livros de auto-ajuda e busca o ponto final perdido em sessões de análise.

Cleber Sousa

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