Governança

Do gerenciamento à governança em em cinco partes – 2/5

 

Na PARTE 11, falei sobre a evolução do papel da TI ao longo do tempo, desde o seu enraizamento nos processos empresariais até a sua dependência nos costumes humanos, culminando com as mudanças na ordem mundial por conta da globalização.

Nessa segunda parte, apresento os desdobramentos oriundos dessas mudanças econômicas, que influenciaram governos e corporações, e as consequências sobre a gestão da TI.

Boa leitura.

PARTE 2  –  O papel da TI nos objetivos do negócio

Os movimentos de reordenação na economia mundial, entretanto, vinham sendo discutidos desde a década de 1980 devido a crises financeiras na Europa. Havia preocupações, sobretudo na Inglaterra, a cerca da necessidade de melhor gestão após os recentes escândalos financeiros e corporativos no país. No início da década de 1990, surgiram dessas preocupações as primeiras publicações do que conhecemos hoje como governança corporativa, um apanhado de boas práticas de como administrar a empresa e manter a saúde corporativa. A iniciativa se refletiu em outros países e ganhou mais importância na agenda de empresas e governos. No Brasil, o movimento ganhou força em 1995, com a criação do Instituto Brasileiro de Conselheiros de Administração, hoje Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

 
As discussões ao redor do mundo sobre a necessidade de controlar os domínios da TI vinham sendo pauta desde a década 1970, a partir de teorias de gestão de processos de desenvolvimento de sistemas. Na Inglaterra, a formalização sobre o assunto surgiu com o estabelecimento de um framework para o gerenciamento de serviços de TI que, após revisões contínuas, foi publicado em vários volumes entre os anos de 1989 e 1996 como Information Technology Infrastructure Library (ITIL)2. O ITIL tornou-se nos anos seguintes um modelo de facto para gerenciamento de serviços de TI, servindo de base para um código de práticas publicado em 2000 como BS 150003
 
O padrão britânico foi pioneiro no assunto e também foi rapidamente assimilado por outros países, fosse como padrão de fato ou modelo para normas locais, a exemplo da Austrália e da África do Sul. A aceitabilidade internacional do padrão e de suas consecutivas revisões deu origem  em 2004 ao projeto de criação de um padrão internacional, a ser mantido e divulgado amplamente: a ISO/IEC 20000, publicada oficialmente em 2005.
Os benefícios advindos da reflexão sobre a importância da TI na manutenção dos objetivos de negócio das corporações foram fundamentais para que modelos de gestão da TI passassem a ser indispensáveis. Entretanto, aquelas preocupações surgidas na década de 1980 e de suas variações e revisões até virada do milênio não foram os aceleradores da adoção internacional dos padrões de gerenciamento da TI. As mudanças nos humores mundiais por conta dos escândalos financeiros da Enron e de outras empresas, tornaram mandatórias práticas de gestão para prevenir fraudes e apontar responsáveis.
 
Nos EUA, essas práticas foram regulamentadas pelo Sarbanes-Oxley Act, lei publicada no ano de 2002. Posteriormente, com o mesmo objetivo de criar padrões de gestão responsável, porém para o setor bancário, surgiu o Acordo da Basiléia II, publicado no ano de 2004. Ambos marcos regulatórios afetaram de forma significativa os processos de TI, já que as informações financeiras e de resultados são oriundas de todos os processos de negócio que geram fatos contábeis e financeiros para a empresa, e que podem estar automatizados ou não4.
 
A governança da TI surge assim, como a interface do negócio com os processos da TI, como uma porta de comunicação que traduz as intenções estratégicas em ações operacionais planejadas e que formata os efeitos dessas ações em resultados compreensíveis aos olhos dos tomadores de decisão da companhia5
.

A governança da TI representa o passo seguinte na gestão da TI, que inicialmente limita-se aos domínios da infraestrutura e que posteriormente se expande para administrar seus serviços6. O setor antes fechado para o resto da empresa, passa a ser mais transparente e acessível aos planos corporativos, menos obscuro, ainda que não tecnicamente. O alinhamento estratégico da TI ao negócio torna-se, portanto, indispensável para empresas de qualquer porte e representa o nível alto de maturidade alcançada em sua gestão.

O alinhamento, entretanto, será problematizado na PARTE 5 – Governança na TI, quando será apresentado o conceito de modelo operacional, proposto por Jeanne Ross, como meio para se obter integração e padronização com o processo de negócio.

Referencias

  1. Do Gerenciamento à Governança em 5 partes – 1  
  2. CCTA. ITIL – Service Suport. Londres, 2000.  
  3. DUGMORE, Jenny. Achieving ISO/IEC 20000 – The differences between BS 15000 and ISO/IEC 20000. British Standards Institution. Londres, 2005.  
  4. FERNANDES, Aguinaldo A.; ABREU, Vladimir F. Implantando a Governança de TI: Da Estrategia à Gestão de Processos e Serviços. Brasport. Rio de Janeiro, 2007.  
  5. WEILL, Peter; ROSS, Jeanne W. IT Governance. Harvard Business School Press.  Massachusetts, 2004.  
  6. SALLÉ, Mathias. IT Service Management and IT Governance: Review, Comparative Analysis and their Impact on Utility Computing. HP Laboratories. Palo Alto, 2004.  
Cleber Sousa

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