No olho do furacão

Uma pesquisa de 2015 da Cisco com a IMD apresentou o conceito Digital Vortex como sendo o efeito caótico que a tecnologia está causando nos mercados. Ela indica que quatro das 10 líderes de mercado em seus segmentos perderão suas posições nos próximos cinco anos devido a mudanças de ordem digital.

No início, achei meio ridícula a descrição de vórtice para explicar a teoria do caos causado pelo impacto do mundo digital. Ficou com cara de modismo terminológico. Mas minha visão crítica transitou de negativa para positiva quando avancei na leitura e vi que o termo foi muito bem empregado.

Bastou lembrar a confusão que o Napster causou no mundo da música, ou no Skype para o mercado de Telecom ou, olhando mais para o presente, para a guerra entre Uber e os taxistas. De fato, há algum tempo, um movimento frenético e caótico em torno de um centro digital vem mudando os mercados. Há um vórtice digital.
O tempo vem mostrando essa tendência aos poucos. E, apesar de estarmos na era em que ser rápido ainda não é o bastante, deixamo-nos enganar pela falta de pressa que o tempo tem para nos ensinar algo. Eu mesmo já escrevi artigos sobre predições e ainda assim fui surpreendido pelo vórtice.

A nuvem já dava pistas sobre o que aconteceria com

investimentos e estratégias de mercado


Já publiquei breves análises de artigos preditivos da Gartner, da Computerworld e do CISR (MITSloan) que já davam pistas do caos que estaria por vir. Eles diziam que, no mundo profissional, a interdisciplinaridade na área de TI apontava para mudanças no perfil do analista técnico, antes focado nos bits e nos algoritmos. No mercado, a nuvem já dava pistas sobre o que aconteceria com investimentos e estratégias de mercado, enquanto VoIP e videoconferência mudaram a visão sobre custos.
Esses foram os fragmentos do que hoje a Cisco e a IMD juntam de forma oportuna.
O que veio após as predições?
Para os profissionais de TI: saíram do Eclipse e foram para o MS Project, para o MS Excel e para as reuniões de negócio. Certificações técnicas deram espaço para PMP, PBA, CAPM, ITIL e COBIT.
Para as empresas: direcionaram internalizações para as terceirizações; trocaram software embarcado por software on demand; derrubaram o faturamento das operadoras de telefonia com o uso do VoIP; esvaziaram aeronaves, encurtando as distâncias com videoconferências; reduziram seus espaços físicos e colocaram as pessoas para trabalhar em casa.

 Fazer de qualquer jeito é uma reação de desespero e não uma maneira planejada de agir


Se os mercados estão no olho do furacão por causa da digitalização do mundo, a própria TI não está menos tranquila apesar de ser a força motriz das transformações.
À medida em que as empresas tentam se reinventar para continuar sobrevivendo, a TI precisa se reestruturar para continuar entregando o que oferece, mas na forma como pedem. O problema está exatamente na velocidade como essa reestruturação ocorre, pois não dá para aprender tendências e criar soluções ao mesmo tempo. E se dá, sai caro… Resultado: façamos do jeito que dá, com o preço que dá, depois a gente melhora.
Há gente que dirá que essa é uma estratégia ou mesmo que está alinhada às intenções do negócio, mas a pesquisa aponta que 45% dos diretores das empresas pesquisadas não se ocupam em pensar o impacto que as transformações digitais podem causar em seu segmento, ou seja, fazer de qualquer jeito é uma reação de desespero e não uma maneira planejada de agir.

Decretaram fim às agências de viagem.


A pesquisa diz mais: empresas dos segmentos de turismo e de serviços financeiros são as que mais correm risco de acabarem ao serem engolidas pelo vórtice no próximos cinco anos. Não duvido. Booking.com, Trivago.com e as próprias companhias aéreas decretaram fim às agências de viagem. Na área financeira, pagamentos por smartphones já estão entre as formas mais práticas e seguras de pagar uma despesa, deixando os inseguros cartões de crédito esquecidos nas gavetas.
O caos não para por aí: varejo, educação, telecomunicações, entretenimento e planos de saúde são os alvos seguintes. Varejistas tradicionais estão fechando suas lojas físicas e migrando integralmente para as virtuais. Englishtown e similares já tiram alunos de cursos de idiomas presenciais. Skype, WhatsApp e Hangout estão sangrando as operadoras de telefonia. Netflix exterminou as locadoras de DVD num golpe só e está fazendo os canais por assinatura terem de se reinventar. E os planos de saúde? Esse risco me intrigou. Como atuo há alguns anos nesse mercado, não consigo ver como isso acontecerá e minha cegueira se dá por estar no olho do furacão e não ter percebido o perigo iminente. Mas já estou trabalhando para (re)agir…

Rever estratégias de negócio no vórtice é uma ação difícil, tentar alinhar a TI a esse cenário é ainda mais caótico


Vemos na análise do Digital Vortex mudanças de ordem comportamental, mudanças difíceis de serem revertidas imediatamente e transformadas em estratégias. E se rever estratégias de negócio no vórtice é uma ação difícil, tentar alinhar a TI a esse cenário é ainda mais caótico.
Certa vez, escrevi acerca da afirmação de um CIO sobre a TI estar definitivamente alinhada ao negócio. Minha opinião é diferente da dele e, para embasar meu ponto de vista, mostrei um estudo do CISR (MITSloan) de 2010 com as previsões até 2015 sobre a transformação do papel da TI nas corporações. Naquela época, eu ainda não via o vórtice formado e, como disse no início, também
não me atentei aos sinais do tempo, mas já percebia que a distância da TI com o negócio não diminuía tanto quanto desejávamos.
Para mim (e para a pesquisa do CISR), a TI ainda é encarada pelos CIOs como suporte ao negócio e não como um parceiro estratégico com quem se devesse estar alinhado. O suporte às transformações digitais é mais urgente do que a intenção de estar alinhado.
Minha discordância, no entanto, não quer dizer que não haja alinhamento. Há, sim, de alguma forma. TI olha o negócio tanto de forma reativa quanto preventiva, buscando sintonizar demandas presentes com tendências futuras, mas a dificuldade está em acertar o rumo das tendências futuras e corrigir em tempo hábil.
Enquanto isso, vamos correndo atrás do futuro sem sermos anacrônicos ou essencialmente preditivos. Afinal, quem diria que os banidos long play (LP) um dia seriam tendência novamente?
Suportar o vórtice é um caos…
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Cleber Sousa
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