Governança

Do gerenciamento à governança em em cinco partes – 1/5

No início dessa segunda década do século XXI, ainda estamos passando pela fase de transição do que é gerenciamento para o que será a governança. A distinção desse dois conceitos é mais do que teoria, é um norteador para o gestor desorientado frente aos desafios corporativos atuais.
 
Boa leitura.

PARTE 1  –  Da ciberdependência aos processos empresariais

As tecnologias de Internet desembarcaram em muitos países ao mesmo tempo, desafiando existentes instituições e poderosos interesses, já que sua difusão foi acompanhada de ideias globais a cerca de financiamento de capital de risco, alavancagem comercial e modelos radicais de negócio.

A Tecnologia da Informação (TI), após o seu primeiro século de existência, ainda se apresenta como um terreno desconhecido aos olhos leigos de usuários dos serviços prestados por estruturas dependentes de computadores. O paradoxo é evidente: ao passo que a tecnologia avança, estando cada vez mais próxima do usuário final — tecnicamente leigo —, as inovações e possibilidades criam novos distanciamentos e, consequentemente, a permanência da sensação de intocabilidade.
 
Essa intocabilidade mostrou-se na breve história da TI em diversos momentos. O emprego de computadores para execução de tarefas impossíveis a humanos e a supervalorização do capital intelectual do especialista em informática – linguagens computacionais, infraestrutura, redes e manipulação de dados – são exemplos da distância entre o desconhecido mundo computacional e o usuário leigo que tem visto a TI como uma reformuladora das necessidades do mundo real para um meio acessível ao uso, mas não ao seu entendimento.Da criação do PC na década de 1970 ao boom da Internet, entre os anos de 1999 e 2001, o mundo viu gradativamente nascer da tela do computador soluções para suas necessidades domésticas e profissionais. Os ágeis editores de textos substituíam aos poucos as lentas e pesadas máquinas de escrever. Empresas criavam bases de dados e controlavam seus estoques, seus clientes, seus contatos e seu faturamento. O usuário doméstico aprendeu a fazer orçamento doméstico com planilhas simples para controle financeiro. A engenharia abriu mão dos esquadros, transferidores e réguas para calcular suas criações.
 
A área médica pôde ver diagnósticos laboratoriais de forma mais rápida. O comércio mudou: qualquer um podia vender e comprar pela tela do computador. A possibilidade de compartilhar criações com outras pessoas em qualquer lugar do planeta, sem a necessidade de retrabalhos, fazia o mundo girar mais rápido. Os governos ampliaram a relação com o cidadão e ofereceram serviços on-line. Em 1990, uma pessoa levava semanas “montando” sua declaração de rendimentos à Receita Federal. Em 2001, o mesmo trabalho era feito em poucas horas.
A vida ficou mais rápida, a linguagem mais rica e os costumes renovados. Além do movimento de ver soluções surgirem de necessidades, as pessoas viram o movimento inverso, de necessidades nunca antes pensadas surgidas de uma “solução”. No boom da Internet, surgiam empresas a todo instante sempre para oferecer uma nova mania, como serviços de agenda calórica para controle de dietas, serviços de previsão do tempo ou a imagem de um relógio atômico transmitido por uma webcam em tempo real. Ter a informática ativa no cotidiano passou a ser mandatório, e muita vezes desnecessário.
 
O que se provocou com tudo isso foi o enraizamento da TI nos processos empresariais e nos costumes humanos. Vivemos uma era de ciberdependência doméstica, educacional, corporativa e governamental, e, com isso, uma era de reavaliação da comodidade em que se instaurou nos ambientes informatizados. Não se trata de uma reavaliação motivada pela consequente dependência, mas sim pela possibilidade de aperfeiçoar a capacidade que a informática tem para  gerar benefícios a sociedade. A necessidade de se rever a TI extrapola o senso de sobrevivência profissional. O enraizamento da TI nos processos empresariais, evidenciado pelos serviços cada vez mais informatizados, atribui aos profissionais envolvidos a responsabilidade pelos seus resultados, não somente pela visão financeira da corporação, mas principalmente pela relação de respeito aos anseios do cliente-usuário de seus serviços. Essa tendência vem colocando definitivamente a TI nos processos de negócio.
 
Os modelos de gestão empresarial sofreram uma releitura a partir do fenômeno da globalização na década de 1990, que significou a internacionalização das finanças, da governança corporativa e do comércio. Coincidentemente, a Internet surgiu com força nesse mesmo período com o primeiro boom, em 1994, e com o segundo boom, em 1999, e que, segundo Kogut, foi um marco que demonstra a relevância da TI nas relações de negócio:
 
Essa coincidência [o boom da Internet em meio à globalização] coloca duros desafios aos modelos institucionais históricos que governam o desenvolvimento e a exploração de tecnologias e inovações dentro das nações. Historicamente, países foram definidos por mais que apenas fronteiras políticas, mas também por instituições e convenções mais ou menos coerentes que formataram a formação de conhecimento de uma força de trabalho e os modos empresariais pelos quais as tecnologias são comercialmente desenvolvidas e comercializadas. As tecnologias de Internet desembarcaram em muitos países ao mesmo tempo, desafiando existentes instituições e poderosos interesses, já que sua difusão foi acompanhada de ideias globais a cerca de financiamento de capital de risco, alavancagem comercial e modelos radicais de negócio1.

Referencias

  1. KOGUT, Bruce. The Global Internet Economy. MIT Press. Massachusetts, 2004.  
Cleber Sousa

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