A Dieta dos Métodos Ágeis

Você já fez dieta? Ou melhor… Você já comprou aquelas revistas que tem de monte nas bancas prometendo uma nova e milagrosa dieta que faz você perder muitos quilos em pouquíssimo tempo, ou com pouquíssimo esforço? Sim?

E funcionou este método milagroso?

Provavelmente você vai me responder que simplesmente não funcionou por que a dieta não se encaixava no seu dia-a-dia, nos seus hábitos. Ou que funcionou por um tempo, enquanto seus hábitos mudaram.

Como adepto do fitness, eu já li livros que, se eu quisesse ter uma mínima chance de ganhar massa muscular eu teria que pedir demissão do trabalho e passar o dia cozinhando ou então trabalhar dobrado (e deixar a academia) para contratar um chef que me preparasse todas aquelas coisas, das quais, muitas me soavam indigestas, no mínimo.

Bem, mas onde eu quero chegar com isso? Simples:

Qualquer tipo de mudança não pode ser imposta como um dogma. Nunca acreditei em nenhum livro cujo título se inicia com “A Bíblia…”. Aliás, nunca li um livro técnico da mesma forma como se lê um romance. Pra mim, este tipo de literatura serve como referência para tirar minhas próprias conclusões.

Não se deve esperar que as soluções para todos os problemas serão encontradas em um método qualquer, como que por milagre. Já vi documentações CMMI de empresas que mais pareciam traduções literais do manual do modelo. As pessoas até faziam o que pedia a documentação, mas quando você perguntava por que, a resposta era a mesma: por que o modelo pede.

O Scrum, por exemplo, recomenda que se faça uma série de cerimônias e uma forma de estimar e como medir o progresso das iterações. Sem exceções ou adaptações, provavelmente a coisa toda não vai funcionar. E você vai culpar o modelo, provavelmente. Só que o caso não é esse. Não funciona por que é necessário que o Scrum (ou seja lá qual metodologia você está implantando) precisa servir no seu workflow.

Não fazer modificações ou adaptações, ou tentar imitar um modelo que serviu bem em uma situação não é a coisa mais inteligente a se fazer, por uma razão muito simples:

Os objetivos, as pessoas, enfim, o ambiente em que sua organização está inserido cria um único sistema complexo. E, quando se fala de sistemas complexos não existe uma solução padronizada.

Exemplo: daily meetings são muito, muito eficientes para times que não tem como ponto forte a comunicação; por outro lado, para um time que trabalha próximo e que está interagindo constantemente, esta cerimônia pode se tornar algo “aborrecido”. Ou seja, algo feito por que “o modelo manda”.

E não é isso que a gente quer! Queremos que as coisas façam sentido para todos e não que sirvam para atender ao protocolo, não é mesmo?

Não estou dizendo que o Scrum não funciona. Pelo contrário, funciona muito bem. Também não estou dizendo que as dietas não funcionam. Qualquer mudança de comportamento tem que ser permanente e as pessoas envolvidas precisam se comprometer. Seja uma mudança na forma como você se alimenta ou como entrega software, ela precisa se adequar ao seu ambiente, precisa fazer sentido. E, pra isso, são necessárias algumas adequações.

Então, se eu fosse você, olharia com olhos mais críticos as revistas na banca; e também os manuais de metodologias.

Artigo originalmente publicado em www.agilemomentum.wordpress.com

Comentários

comentarios

Marcelo Leite Barros
na

2 comentários em “A Dieta dos Métodos Ágeis

  • março 25, 2015 em 11:11 am
    Permalink

    Olá, ótimo artigo Marcelo L. Barros.

    Seguir um modelo, mesmo que seja como “cumprir tabela” é um começo mas, cabe a organização estimular a tão pretendida “melhoria contínua”.

    É preciso evoluir os modelos de forma que o fluxo de trabalho torne-se cada vez mais aderente a necessidade da empresa. Vemos esta mesma situação ao falar sobre DevOps pois não existe um Manifesto DevOps mas sim Cultura, Automação, Avaliação e Compartilhamento, conhecido pela sigla CAMS. A base de tudo está na Cultura e, acredito que seja o mais complexo de se mudar.
    Seu artigo demonstra bem isso, se não houver cultura e evolução no pensamento de forma a atender melhor a necessidade da empresa, ninguém cresce nem aprende, a frustração toma conta da equipe e a rotatividade começa… a tão sonhada dinâmica e agilidade se perdem.

    Vale a pena ler e refletir sobre como estamos conduzindo nossos processos e projetos, de uma maneira ágil ou apenas um passo-a-passo mecânico e estacionário.

    Obrigado por compartilhar.

    Abs,
    Sérgio Salles

    • março 31, 2015 em 11:48 am
      Permalink

      Obrigado, Sergio!

      Mudar pro Agile é muito mais que “virar a chave”, é uma enorme mudança cultural. E é aí que está o grande trunfo, por que mexe com as pessoas, as faz pensar em evoluir e não trabalhar apenas com “o que tem pra janta”.

      Abraço